Comunidade Educadora

“ … Eu acredito que o papel do cidadão demande um comportamento ético: demande a convicção de que a própria comunidade deveria possuir certas características das quais o indivíduo possa ter orgulho, e o empenho em agir na primeira pessoa para que a comunidade ideal se torne realidade … “ Assim escreve Howard Gardner no seu recente livro “Cinco Chaves para o Futuro”, no capítulo dedicado à ética na qual descreve Reggio.

O que é e como é uma comunidade educadora?

A definição mais comum reenvia ao significado da palavra (verbo) educar às raízes latinas ex ducere = mostrar, tornar realizável (visível) aquilo que é possível, aquilo que está implícito em cada pessoa, desde criança: o seu poder, as suas potencialidades, o seu valor de pessoa, a sua dignidade humana . Mas não basta. Educar significa principalmente um ato de reciprocidade, quem educa também é educado e o seu saber se joga no ato da educação. Educar não é apenas formar. Educar é construir junto identidade e futuro. Para isto a escola, em uma comunidade educadora, desenvolve um papel primário para os estudantes, que devem aprender os conteúdos do programa oficial, mas também o pensamento criativo, sintético e sobretudo ético. Por isto grande é o papel dos educadores que são os primeiros modelos, mas é essencial também o papel que a comunidade pode desenvolver, não apenas para integrar, mas para confirmar e expandir os conceitos e os valores através de boas práticas e de bom trabalho.

O pensamento ético, como aquele sintético ou criativo caros ao professor Gadner, não se aprende há não ser através de uma ação, de um contexto que seja bom, isto é, ético; um contexto no qual as pessoas tenham o direito de compreender porque fazem/aprendem aquilo que fazem e como este conhecimento possa ser colocado a serviço de fins construtivos. As instituições devem então primeiramente garantir e se garantirem em ser lugares éticos também para se oferecerem como parâmetros de referência para todos aqueles lugares de trabalho, associações públicas e de voluntariado que pretendem agir para ser antes de tudo lugares educativos. Se torna porém central refletir sobre a relação fundamental que existe entre educação e democracia. A educação é a tarefa mais importante da democracia. De fato o maior perigo para a democracia é a ignorância. A ignorância perigosa, aquela que mina nas raízes o sentido da educação e da democracia própria, é aquela da pessoa que não é capaz de mudar, de persuadir e de ser persuadido porque não reconhece outra identidade e verdade que não seja a sua. Uma sociedade plural, como aquela na qual vivemos, tem necessidade, agora mais do que nunca, de pessoas que saibam assumir responsabilidade das próprias opiniões, mas que saibam aceitar que as próprias opiniões podem mudar no confronto com as dos outros.

Uma comunidade educadora é então uma comunidade que permite tempos e lugares onde processos ( de confronto e debates ) possam acontecer.

É uma comunidade onde ao conceito de solidariedade se acrescenta, até integrá-lo, aquele de participação. De fato não se tem aí verdadeira solidariedade se não houver aí conhecimento e reconhecimento, e não se cria uma relação de reciprocidade. Solidariedade não é para ser dada ou oferecida a alguém que é ou se sente excluído, limitado, mas é de preferência um reconhecer-se em alguém, lhe dando e nos dando  dignidade. Então a ligação que me une ao outro não é apenas cuidado, mas é curiosidade, desejo de conhecimento, responsabilidade. A responsabilidade difusa  de uma sociedade de relações. Uma comunidade e uma cidade educadora é aquela que educa os próprios cidadãos, mas que se faz também educar, trocar com os próprios cidadãos.

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